Os povos indígenas brasileiros têm várias danças tradicionais que muitas vezes são desconhecidas pela maioria das pessoas. Assim, o Pet Indígena Ações em Saúde traz curiosidades sobre algumas dessas “Danças Tradicionais Indígenas”, evidenciando a marca de suas origens, o  conhecimento e o fortalecimento da vida indígena em sua ancestralidade.

Para conhecer um pouco do Búzio, uma dança tradicional Pankararu, conversamos com Edinho Pankararu, na Aldeia Brejo dos Padres, situada entre três municípios do Sertão Pernambucano: Tacaratu, Jatobá e Petrolândia. Edinho, um grande conhecedor do Búzio, concedeu essa entrevista a Weslley Pankararu. Edinho é educador e um dos responsáveis pelo resgate da Dança no Búzio.

Foto destacada: Pankararu Nação Cultural 2011

Cuidar da natureza é cuidar de nós mesmos!

Edinho começou trazendo o significado do que é ser indígena para ele: 

“Ser indigena para mim é cuidar da natureza.”

Ele ainda complementou dizendo que o ser indígena vive de tudo que vem da natureza. Portanto, cuidar da natureza é cuidar de nós mesmos. Edinho comentou, então, o que significa o Búzio:

“O Búzio é uma dança praticada por nós indígenas Pankararu, onde nós indígenas do povo Pankararu dançamos em comemorações de alegrias, aniversários, batizados e etc.”

Hoje, com 34 anos, ele fala que pratica a dança desde seus 7 anos de idade, sempre fortalecendo o conhecimento que ele aprende com os anciãos da comunidade e sempre repassando isso para os mais jovens da aldeia, de modo que a essência de uma dança tão significativa aos indígenas do povo Pankararu nem seja deixada de lado nem se perca. Ele reforça a importância de se fortalecer cada vez mais a cultura:

“Não podemos deixar para trás o que temos de aprendizados de nossos antepassados e sim, fortalecer mais e mais com nossos jovens que têm a curiosidade em aprender as coisas do nosso povo.”

O Búzio é tradição e fortalecimento da cultura Pankararu

Diante disso, ele falou um pouco sobre seus conhecimentos e diferenciou o Búzio em relação ao Toré, que é mais conhecido.

“O Toré é com mais gente, não tem quantidade certa e o Búzio é com duas pessoas, dança duas pessoas e um, uma, dois, duas, pessoas cantando”. 

Neste vídeo, da Mostra Pankararu de Música, Edinho conta e mostra um pouco do Búzio. Confira:

Ainda segundo ele, o Búzio é praticado por outros povos da Região Nordeste, citando os povos indígenas “Fulni-ô, Kariri Xocó e Xucuru Kariri, mas cada uma com sua especificidade de sua cultura/tradição”. 

O Búzio é composto por dois bambus, sendo que os mais velhos dizem que um é o macho e o outro é a fêmea. Um emite um som mais grave e o outro mais agudo, como se um desse o som e o outro respondesse. Antigamente, era utilizado em momentos de alegria, de comemoração, de vitória.

E o Búzio, está acabando?

Edinho nos conta que a dança vinha sendo esquecida há muito tempo, mas que buscou dar continuidade e se aprofundar na dança do Búzio.

“Foi porque Pankararu, no entanto, estava “esquecida” essa dança e eu sempre fui de querer saber, se aprofundar mais na tradição do meu povo. Então, através da minha família, eu consegui resgatar e afirmar essa dança, que é tão importante para o nosso povo Pankararu”.

Essa busca de Edinho nos traz também o compromisso e importância dos aprendizados entre as gerações e do fortalecimento das tradições indígenas. Quando perguntado sobre quando o Búzio deve ser dançado, ele comentou que não há momento certo para ser praticado: “o momento é na hora que nós ‘quer’ praticar a gente se junta e pratica”. Por fim, ele deixa a mensagem:

“Eu sempre ensino os mais novos, a gente tem um grupo de jovens e adultos que praticam o Búzio e através desse grupo surgiram mais grupos, e sempre que tem esses momentos eu sempre fico ensinando.”

Na Aldeia e na Universidade!

Em novembro de 2019, no encerramento do III Wokshop Saúde dos Povos Indígenas, realizado pelo PET Indígena Ações em Saúde da UFSCar, os indígenas Pankararu organizaram uma apresentação do Búzio, que pode ser conferida a seguir: 

O Búzio é uma dança de fortalecimento enquanto povo Pankararu. Essa, que não é usada em rituais, mas sim em comemorações, e que, por um tempo, passou por um processo de resgate e reafirmação, está presente tanto no contexto das aldeias quanto em outros espaços, como foi o caso da apresentação na UFSCar.

Hoje, o Búzio vem sendo cada vez mais praticado pelos adultos, jovens e adolescentes, revigorando conhecimentos ancestrais de forma viva e fortalecendo a nossa saúde!

E aí, gostou de conhecer o Búzio? Na próxima publicação traremos mais uma dança tradicional indígena.

Autoria de:

Weslley de Jesus

Joelson Antonio

Guanilce Falcão Soares

Rosania Ferreira de Lima

Revisão:

Willian Fernandes Luna

 

Foto/Capa: índios Pankararus

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Referências:

Entrevista realizada por Weslley de Jesus, Aldeia Brejo dos Padres, Povo Pankararu, Jatobá-PE. Roteiro e transcrição feita por Joelson Antonio com a finalidade da realização de uma atividade do grupo PET Indigena – Ações em Saúde Indigena – UFSCar, atividade intitulada como“Você sabia?” Entrevistado Leandro Tenorio (Edinho Pankararu).  SÃO CARLOS, SP – 2021